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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A Queda

O que exatamente ocorreu quando o Homem decaiu, isso não sabemos, mas, se é legítimo imaginar, ofereço a seguinte impressão – um “mito” no sentido socrático,¹ um conto não de todo improvável.
         Por séculos a fio, Deus aprimorou a forma animal que deveria tornar-se o veículo da humanidade e a imagem de Si Mesmo. Deu-lhe mãos cujo polegar poderia juntar-se a cada um dos dedos, mandíbulas, dentes e garganta capazes de articulação e um cérebro suficientemente complexo para executar todos os movimentos materiais pelos quais o pensamento racional toma forma. A criatura pode ter existido por eras nesse estado antes que se tornasse homem, pode até mesmo ter sido inteligente a ponto de fazer as coisas que um arqueólogo aceitaria como prova de sua humanidade. Entretanto, era apenas um animal, porque todos os seus processos físicos e psíquicos estavam dirigidos a fins unicamente materiais e naturais. Então, na plenitude do tempo, Deus fez com que viesse sobre esse organismo, tanto em sua psicologia como em sua fisiologia, um novo tipo de consciência que poderia dizer “eu” e “a mim”, que poderia olhar para si mesma como uma realidade, que conhecia a Deus, que podia tecer juízos acerca da verdade, da beleza e da bondade e que se achava tão acima do tempo que podia perceber o fluxo temporal passar. Essa nova consciência regia e iluminava todo o organismo, enchendo-lhe cada parte de luz, e não se limitava, como em nosso caso, a uma seleção dos movimentos se sucedendo em uma parte do organismo, a saber, o cérebro. O homem era então totalmente consciência. (...)
         Nesse sentido, embora não de maneira absoluta, o homem era então verdadeiramente o filho de Deus, o protótipo de Cristo, protagonizando de forma perfeita, na alegria e na comodidade de todas as faculdades e de todos os sentidos, aquela submissão filial que Nosso Senhor protagonizou nos padecimentos da crucificação. (...)
         Ignoramos quantas dessas criaturas Deus criou e quanto tempo elas continuaram no estado paradisíaco. A certa altura, porém, elas decaíram. (...)
         Eles queriam ser substantivos, mas eram – e eternamente devem ser – meros adjetivos. Não temos idéia alguma sobre o ato particular – ou a série de atos – em que o desejo contraditório e impossível encontrou expressão. (...)
         Esse ato de obstinação da parte da criatura, que constitui uma inteira falsidade para com sua verdadeira posição de criatura, é o único pecado que pode ser atribuído à Queda.

¹Isto é, um relato do que pode ter sido o fato histórico. Não deve ser confundido com “mito” no sentido que lhe empresta o doutor Niebuhr (representação simbólica de uma verdade não histórica).
Extraído do livro: O Problema do Sofrimento - CS Lewis

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